HOLOCAUSTO DA SECA

Entre o inferno da seca e os santos da barragem

O Cemitério da Barragem do Patu, em Senador Pompeu (CE), é local sagrado para todo o povo do Nordeste do Brasil. Simboliza o local onde se encontram os martirizados corpos das ALMAS PENADAS DA BARRAGEM, que pelo excesso de sofrimento, morreram aos milhares, vez que depositadas como coisas num dos Campo de Concentração da Seca de 32

Uma das vocações do sertanejo é a sua fé inabalável, que por horas parece ser o único conforto para tanto sofrimento. A lembrança daquele vale imerso de penúria permanece viva nos casarões e na memória das pouquíssimas testemunhas que atravessaram essas anos.

Senador Pompeu é uma cidade com pouco mais de 26 mil habitantes e de uma forte tradição católica. Do sofrimento e lamúria sentidos pelos famintos do campo de concentração, a comunidade cultua hoje milagres que são atribuídos às vítimas. Transformando o que um dia foi dor, em fé.

Em virtude disso, pequenas demonstrações de devoção se manifestam em detalhes ricos de simbolismo. É assim na missa quando inúmeras são as oferendas em gratidão pelos milagres alcançados com a interseção das Almas da Barragem... E somente uma missa parece não dar mais conta de tanta devoção.


Caminhada anual da Seca - Senador Pompeu/CE

Tanto que desde 1992, um grupo de religiosos da cidade iniciou uma modesta peregrinação saindo do adro da igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores até o cemitério construído nas proximidades do Açude Patu. Do Centro da cidade, homens, mulheres e crianças se espremem numa longa caminhada de três quilômetros até a Vila dos Ingleses para lembrar o sofrimento daquele povo.

Um caminho estreito de terra, ladeado por mato, que é ocupado mais de seis mil pessoas que todos os anos, no segundo domingo de novembro, repetem o ritual. Em intervalo de tempo, toda a procissão para a escutar, em silêncio sepulcral, o relato do que aconteceu. “Todos vêm vestidos de branco, cantando e rezando para as almas da barragem. Aqui, há uma santificação popular daqueles mártires”, diz Fran Paulo.

No cemitério conta-se nos dedos a quantidade de cruz, todas enterradas nas covas dos mortos mais recentes, porque a homenagem às milhares de almas do campo de concentração está refletida num grande cruzeiro localizado na entrada do cemitério, construído com a doação da população.

O cortejo cresce a cada ano e atrai devotos de toda a região, quer por admiração e solidariedade à memória, quer por devoção e compromisso para agradecer os milagres. Dentro do cemitério foi construída ainda uma pequena e modesta capela e é nela que está hoje um dos maiores canteiros de fé do interior do Ceará. No altar, uma toalha enfeita o suporte para os inúmeros santos doados pela comunidade. “Esse manto é trocado periodicamente por um senhor que intercedeu uma graça aos mártires e prometeu que enquanto tivesse vida cobriria o altar”, explica Fran Paulo.

Atrás das portas, as velas se derretem e criam um piso de cera. Sobre elas, uma sacola de plástico segura um pedaço de pão – nele a intenção é alimentar as almas vítimas da fome. Pés descalços, sol quente, terra pueril e mato fechado não são empecilhos para a devoção dos que hoje cultuam a memória das vítimas do descaso público.

Negligenciado pelos livros e pelo Governo, é no colorido das fitas laçadas em louvor às Almas da Barragem que se mantém vivo um pedaço do passado brasileiro marcado por dor e sofrimento. A história é tão cruel e impiedosa quanto a que posteriormente o mundo conheceu à luz da Segunda Guerra Mundial – um Holocausto na Europa, um Holocausto no Ceará.

Foto: Mara Paula
Holocausto da Seca - OpenBrasil.org

Postagens mais visitadas

Imagem

Holocausto da Seca