HOLOCAUSTO DA SECA

Estratégia para aglomerar os famintos

Fundação do Açude Patu - Senador Pompeu / CE

A estratégia para aglomerar os famintos foi impiedosa, se valendo de todos os recursos e elementos necessários para atraí-los, como quem enfeitiça pelo canto das sereias. O Governo aproveitou as duas ferrovias que cortavam o Estado – uma na cidade de Baturité e outra em Sobral – como transporte para migrá-los em massa até um dos sete campos de concentração que foram montados nos municípios de Ipu, Quixeramobim, Cariús, Buriti, Crato, Fortaleza e Senador Pompeu.

O retrato mais cruel está nessa última cidade, justamente onde foi construída a barragem, inaugurada futuramente em 1987 pelo nome de Açude Patu. De acordo com números do próprio Dnocs, mais de 16 mil famintos, dos 100 mil que se espalharam pelos campos, estavam amontoados em Senador Pompeu. O espaço transformou-se em um verdadeiro vale de suplício, sangue e sofrimento. “Meu pai contava que os famintos chegavam de multidão porque o Governo dizia que aqui eles encontrariam comida, médico e moradia”, relata José Gomes, agricultor aposentado que hoje ocupa um dos casarões abandonados. Ele não viu a cena de miséria, mas o seu pai foi um dos guardas contratados pelo Governo para vigiar o campo e impedir que os que entrassem não tivessem a chance de sair.

(Hoje) Açude Patu - Grande cemitério de 1932 - Senador Pompeu / CE

Além dos homens-oficiais que faziam o patrulhamento, a área era também contornada por arame farpado para dificultar a saída. A ausência dos famintos no Campo de Concentração só ocorria em duas situações: uma se prometesse ir embora para trabalhar nos seringais do Norte, “pra isso o Governo dava até a passagem e ainda mandava deixar nas embarcações”, repassa o agricultor. A segunda – e mais cruel – era através da morte.

A professora Kênia Rios, lotada como pesquisadora no Departamento de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), descreve no livro “Campos de Concentração do Ceará” (2001) que milhares de pessoas ficavam encurraladas até morrer de fome e de doenças.

Todos se amontoavam em barracos. Faltavam condições de vida na mesma proporção que faltava dignidade na hora da morte. Os filhos daquela geração relatam que os corpos eram arremessados em valas abertas no mesmo espaço ocupado pelos que lutavam pra sobreviver. Ou seja: “hoje esse açude coberto de água, na verdade, é um grande cemitério”, ilustra Fran Paulo, cidadão pompeuense que integra uma comissão na cidade dedicada aos Direitos Humanos e a transformar a região dos casarões em Patrimônio do Estado.

Enquanto nos prédios abandonados pelos ingleses residiam os homens oficias e suas famílias, os famintos e mortos dividiam o espaço de terra rachada com barracos construídos de gravetos secos, sem contar os que dormiam ao relento, sentindo a terra como cama, e o frio da noite como castigo. Os vigias do Governo tinham o poder de repressão. Os homens andavam de cabeças rapadas e trabalhavam na marcenaria.

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
Holocausto da Seca - OpenBrasil.org

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