HOLOCAUSTO DA SECA

Isca - Promessas de trabalho e alimentação

Mapa dos campos de concentração no estado do Ceará - 1932.

Com a seca de 1932, aprimorou-se o projeto de 1915. Foram construídos sete campos. Em Fortaleza havia dois, para confinar retirantes que lá já estavam. Ambos chegaram a ter 1.800 presos. Os de Crato e de Senador Pompeu receberam mais de 16 mil cada um; Quixeramobim, 4.500; Cariús, 28 mil; e Ipu, cerca de 6.500.

“Os sertanejos eram atraídos por promessas de trabalho, alojamento, alimentação e serviço de saúde”, afirma Kênia Rios. Mas a multidão era concentrada em espaços precários. Tinha a cabeça raspada, usava roupas feitas com sacos de farinha e trabalhava praticamente em troca de comida.

Os homens lidavam principalmente com marcenaria e construção de tijolos, as mulheres na fabricação de sabão e as crianças, que não tinham escola, podiam trabalhar e aprender artes e ofícios. Faltavam comida, água e remédios. Soldados armados detinham aqueles que tentavam fugir. Os campos mantinham locais para punir e encarcerar os rebeldes. “Atestados de óbito mostram que no campo de Ipu a fome e doenças como cólera chegavam a matar oito pessoas por dia”, destaca a historiadora.

Registros oficiais contabilizam mais de 60 mil cearenses mortos nesses campos. Estudiosos creem que o número é imensamente maior do que os registros oficiais. “O flagelo era maior lá dentro, com tamanha concentração de gente doente. Por maior que fosse a seca, em liberdade o sertanejo poderia caçar ou se alimentar de frutos silvestres em muitas regiões, como no Cariri (região do Ceará)”, ressalta­ Valdecy Alves.

O advogado Otoniel Ajala Dourado, da ONG SOS Direitos Humanos, afirma que os flagelados eram aprisionados por ser pobres, forçados a trabalhar para prefeituras, sem remuneração, e torturados por se rebelar. Desde 2009 a entidade move uma ação civil pública contra a União e o estado do Ceará por danos morais às vítimas do crime, imprescritível, de lesa-humanidade e genocídio.

A indenização pedida é de R$ 500 mil para sobreviventes e familiares dos mortos. No mesmo ano, o juiz substituto da 6ª Vara da Justiça Federal no Ceará extinguiu a ação sem julgar seu mérito. Nova ação foi protocolada e está para ser julgada. A denúncia foi apresentada também à Comissão Internacional dos Direitos Humanos, em Nova York.

Em 1933, quando as chuvas voltaram a cair, os campos foram desativados e os sobreviventes deveriam ser encaminhados de volta aos locais de origem. Nem todos, porém, retornaram. Em Fortaleza, a maioria ficou e deu início a uma das maiores favelas, a Moura Brasil, em Pirambu. “A violência desses campos reflete os primeiros anos da República, a crueldade com os pobres e com os negros”, diz Kênia Rios, autora do livro Campos de Concentração no Ceará – Isolamento e Poder na Seca de 1932, que inspirou documentários e peças teatrais.

Documentos perdidos
A “Justiça” cearense, manobra de todas as formas possíveis, extinguindo as ações sem julgamento de mérito, tentando com isso fazer permanecer no esquecimento essa página negra da nossa história.

Toda documentação desses genocídios e infames campos de concentração tupiniquins tem sido oculta ao longo das décadas, embora haja hoje uma ação na justiça solicitando a identificação via DNA, de todos os mortos sepultados em valas comuns e seu translado para cemitérios regulares.

Pleiteia-se também indenização para os sobreviventes e seus descendentes.

Foto: Folha de São Paulo
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