HOLOCAUSTO DA SECA

No passado, a filha do vigia; hoje, uma testemunha da miséria.

Carmélia Gomes Pinheiro. No passado, a filha do vigia; hoje, uma testemunha da miséria.

Espremido entre as ruínas do que restou de dois daqueles casarões que abrigaram os engenheiros ingleses, está escondido um humilde casebre: baixo e com os tijolos à mostra, telhado inclinado e um paredão frontal com brecha apenas para uma janela. Dessa janela se vê uma paisagem verde, com raras flores, mas com mato tão fechado que chega a esconder quase todos os antigos casarões. Daquela baixa janela também se vê o véu de noiva formado pela água perenizada na tão sonhada barragem.

A casa é da aposentada Carmélia Gomes Pinheiro, de 91 anos. Mas, na verdade, essa paisagem só é vista mesmo pelos olhos dos que a visitam, porque, para ela, nada disso tem esse significado. Pelo contrário! É impossível vê aquelas ruínas, aquela terra molhada e não se lembrar de um passado amargo, que ainda atormenta o seu presente. Filha de um dos vigias que vistoriava o curral dos flagelados, em 32, ela é hoje uma das poucas sobreviventes daquele momento. Ocupa o tempo rezando e recebendo visitantes.

“Tem gente enterrada embaixo da minha casa, tem gente enterrada embaixo dos seus pés”, alerta dona Carmélia com os olhos esbugalhados e atentos, evidenciando a perturbação que aquilo tudo deixou na sua vida. Ela ponta para o canto da casa, ela aponta para um além, lá fora da janela. Com uma lucidez invejável, por horas a sua testa se transforma em ondas de rugas, quando retrai todas as expressões para descrever o que via, enquanto era protegida pelo seu pai.

“Era muito triste aquela multidão de adultos e crianças amontoada no meio do tempo. Eles não tinham casa, dormiam no chão e todos os dias morriam vários com fome e com lepra. Nem cemitério tinha. Quando era no final da tarde, os vigias arremessavam um monte de gente morta nos buracos cavados no meio deles mesmo”, descreve. Fome ela garante que nunca passou e até ajudou aos poucos que podiam porque “(o seu pai) não deixava sair de casa, tinha medo. Mas mesmo assim eu e mamãe tentávamos ajudar com um prato de comida ou um remédio.

Eles apareciam em desespero na nossa janela”, relembra. Enquanto conversava, a mão de dona Carmélia saltava para um lado e para o outro, mas sempre eram direcionadas aos olhos – vendando o que parece que só ela via com muita nitidez.

Dona Carmélia nunca abandonou o lugarejo (hoje conhecido como Vila dos Ingleses ou Sítio-Barragem). Chegou com os pais em 1926. Casou e foi abandonada pelo marido com três filhos. Mora com uma das filhas, mas todos os dias ela dedica suas orações às centenas de afilhados que amadrinhou e viu morrer de agonia. “As grávidas pariam no meio do mato porque não tinha hospital. A criança que escapasse dormia na terra igual aos pais e os irmãos. Quase todo dia aparecia uma mãe ou um pai em prantos pedindo pra gente apadrinhar e doar um punhado de feijão com osso, porque era isso que o Governo mandava”.

Acabada a estiagem, um ano depois, os flagelados se foram e ela diz com remoço que desde então nunca mais nenhum deles voltou ao lugar, mas alerta, “os que morreram não têm sossego porque a agente escuta umas coisas estranhas aqui na barragem. Foi muito sofrimento pra aquele povo”, lamenta.

“A maioria do alimento era desviada. Medicamentos, chegavam poucos para atender a tantos doentes. Roupas não eram enviadas. Quando as vestimentas já estavam aos trapos, os corpos eram cobertos com sacos de mantimentos (sacos de açúcar). Muitos sacos eram costurados e transformados em camisões. E era assim que a maioria era sepultada. Com receio de arrancarem o fígado dos mortos quando eram jogados nas valetas do cemitério, muitas famílias enterravam seus mortos no mato, escondido”, conta.

Carmélia lembra um momento marcante naquele ano da concentração, quando caminhando pelo campo viu corpos ainda não enterrados. Ficou paralisada. “Vi uma lagartixa saindo de dentro da boca de um dos mortos.”

Foto: Estadão
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