HOLOCAUSTO DA SECA

Relatos de uma sobrevivente

Relatos de uma sobrevivente - Luzia Pereira, dona Lô.

Quando o escritor Euclides da Cunha (1866-1909) profetizou em “Os Sertões”, um dos seus romances mais conhecidos, que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, sequer imaginaria o quanto sua exaltação ao homem do sertão se traduziria em verdade. O romancista não tem nenhuma relação com a história dos campos de concentração, até morreu 23 anos antes do calvário de 1932, no entanto, suas poucas palavras são as mais contundentes para ilustrar a história de Luzia Pereira, dona Lô, a única sobrevivente daquele calvário em Senador Pompeu.

Uma mulher que nasceu para atravessar o tempo e parece ter sido preparada pela vida para contar sua história, quase toda marcada por sofrimento e perdas. Hoje, o rosto assustado e tomado por rugas não tem mais a mesma vitalidade da menina que percorreu 120 km a pé, acompanhada pelos pais agricultores, José Pereira e Josefa Bezerra, e seus 8 irmãos, saindo da cidade de Tauá. Mas ainda tem a firmeza! O destino daquela peregrinação era chegar ao curral do Governo, de onde ouviram falar que o então presidente Getúlio Vargas estava distribuindo alimentação.

“Não caía uma gota de chuva e a gente não tinha mais o que comer. Minha família e outras 16 pessoas resolveram sair de Tauá e vim pra Senador (Pompeu) pra tentar sobreviver. A gente andava pelo meio do mato, com fome e sede. Quando chegamos aqui (Campo de Concentração), dormíamos no chão porque não tinha nem barraca, nem sombra de árvore. Comida? A gente agradecia a Deus quando conseguia um feijão preto e osso que mamãe cozia na beira do rio pra comer insosso mesmo” (sem sal), descreve dona Lô.

Lembrar o calvário erguido no sertão cearense, dona Lô faz sem muito esforço. Sequer demonstra fortes emoções, mesmo quando descreve momentos tão fortes como o da morte e sepultamento de sua irmã, ali, naquele cenário de guerra. Em contrapartida, não contém a lágrima que cai quase involuntariamente quando se lembra dos pais e da peleja da família para conseguir um abrigo. “Um dia meu pai foi pedir feijão ao Nilo (um dos vigilantes e responsáveis pela distribuição de alimentos) e ele respondeu que só dava se meu pai fosse embora para o Pará. Ele disse que não ia nos deixar e o capitão quis até castigar raspando a cabeça dele. Como a gente não tinha o que comer, meu pai fugia à noite pelo meio do mato pra pedir esmola na cidade. Todo dia a gente rezava para que nada acontecesse com ele no meio do matagal”.

“Tenho muita coisa pra dizer não. Minha mãe não deixava nós desgrudar dos pé dela. Era muita gente. Ela tinha medo de alguém carregar eu e meu irmão. Do resto todo mundo já sabe. Perdi a conta de quantas vez já repeti tudo isso. O sofrimento foi medonho… (grande). Deitamos ali mesmo, no chão, sem ter o que comer, minha mãe ferveu água para passar a fome. Era apenas o começo dessa miséria que nunca esqueci… Desesperado, meu pai resolveu carregar a gente de Tauá para cá (Senador Pompeu) à procura do que comer e beber. Mas se estava ruim ficou pior.”

Ao esmiuçar todo o sofrimento de seus parentes, dona Luzia deixa claro o trauma que a mantém ainda solteira. Mesmo quando a seca acabou, pouca coisa mudou na condição de vida da família de dona Lô. Assim como o pai, ela também foi às ruas para pedir esmola até conseguir trabalho como empregada doméstica. “Foi na casa daquela família (que não lembra o nome) que eu realizei o meu sonho de comprar uma rede e depois ajudei meus pais a comprar um ranchinho”, diz envaidecida. Luzia é a única herdeira ainda viva da família. Mora próximo ao Centro da cidade de Senador Pompeu e está sob os cuidados da cunhada.

Foto: A/D - Arquivo OpenBrasil.org
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